BLOGUE DA ORGANIZAÇÃO DA FREGUESIA DE LORDELO DO PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS

quinta-feira, 1 de abril de 2010

As auto-estradas, a região e os deputados

Os recentes anúncios governamentais no que respeita a vias de comunicação na região são completamente desastrosos. Relembro-os: introdução de portagens na A41 e A42, no troço Paços de Ferreira - Porto e suspensão da construção do IC35, e que afecta directamente Penafiel, Marco de Canaveses, Castelo de Paiva, Cinfães e Resende.
De que estamos verdadeiramente a falar?
A A41 e a A42 são das AE mais utilizadas do país, com mais de 38.000 viaturas por dia. Acima delas, com maior afluxo, só a A29, entre Gaia e Estarreja, e a A5, de Cascais a Lisboa. No quadro de um conjunto geral de auto-estradas em Portugal que são das menos utilizadas por habitante em toda a UE, estas vias de comunicação regional não têm alternativas. E por não terem alternativas, respondem a uma série de indicadores oficiais que foram estabelecidos para justificar a introdução (ou não) de portagens.
Assim, sabe-se, o PIB da região é inferior a 80% da média do país. Tal não admira tendo em conta ser a região do Vale do Sousa e Baixo Tâmega uma região deprimida e socialmente fragilizada pelo subdesenvolvimento e pelo desemprego. Este indicador justificaria a não introdução de portagens.
Assim, sabe-se, o IPC da região é inferior a 90% da média do país. É sabido que o poder de compra reflecte as grandes dificuldades económicas das famílias na região. Este indicador justificaria igualmente a não introdução de portagens.
E, por último, a distância em tempo pelas falsas alternativas é superior a 135% do tempo gasto em viagem por auto-estrada. A EN 207 não é alternativa adequada à circulação de pessoas e bens, são mais 167% em tempo de percurso, e que em tempo real são mais 34 minutos.
Só uma grande mistificação poderia justificar a inclusão da A41 e A42 nas vias com portagens. Considerar o PIB dos concelhos do Grande Porto para a média avaliada parece ser uma manobra politicamente inábil.
Já se estima que mensalmente quem circule, ida e volta, na A41 e A42 gastará de 76 a 125 euros por mês em combustíveis. E estimando-se que 100 km nas ex-SCUT´s poderão custar aos automobilistas cerca de 5,85 euros em portagens, teremos uma viagem de ida e volta nestes percursos a onerar em portagens mensalmente em 48,8 euros.
Só a insensata procura de receitas, numa lógica sem princípios, nem equidade, poderá justificar tamanha sobrecarga financeira às bolsas domésticas, e que é também uma discriminação.
A deputada Glória Araújo julgou encontrar o ovo de Colombo para salvar a face do seu Partido, o PS. Inventou uma “isenção de pagamento a quem se deslocar entre concelhos da região do Vale do Sousa”. A sua concretização parece pouco credível, nem se esperando qualquer negociação ou discussão com o Ministério das Finanças para a sua aplicabilidade.
Conviria, se calhar, ouvir mais atentamente o, igualmente, deputado PS Nuno Araújo. Quando ele diz que (cito) “a colocação de portagens na A42 é uma forma de encontrar outras formas de financiamento para a construção de rodovias”, está a dizer que para ele qualquer fonte de receita serve, independentemente de critérios de igualdade, equidade, justiça.
Os protestos dos movimentos de utentes servem para combater isto. As inevitabilidades são frágeis argumentos contra o protesto. A 17 de Abril é o próximo.
Cristiano Ribeiro, in Progresso de Paredes de 31.03.2010

1 comentário:

  1. Caro Dr. Cristiano Ribeiro
    Como sabe, tenho o maior respeito por si e pelo seu trabalho, e é isso mesmo que me motiva a comentar este seu artigo. Tudo o que diz em relação aos critérios utilizados pelo Governo para portajar a "nossa" SCUT é algo com que eu não só concordo, como tenho assumido publicamente. E até mais: tenho questionado, e, perdoe-me, mas não tenho conhecimento que o Dr. Cristiano o tenha feito, a forma como as Estradas de Portugal municipalizaram a rede viária. Sabe o Dr. Cristiano que em Paços de Ferreira, por exemplo, não há um único quilómetro de estrada nacional? Pois é. A autarquia recebeu muito dinheiro por Km para receber essas vias, dinheiro esse que é suposto ser para a conservação e manutenção das estradas nos próximos dez anos. Ora como pode o Governo dizer que garante a melhoria da rede viária alternativa à SCUT se não tem nenhum instrumento que obrigue uma autarquia a fazer obras numa estrada municipal?
    Afianço-lhe Dr. Cristiano, que esta e outras preocupações, como o tarifário, as isenções(que o sistema electrónico a implementar permite) e a profunda iniquidade e injustiça de optar por não portajar a SCUT do Algarve, são questões que apresentei diversas vezes ao MOPTC, a última das quais em reunião com o actual ministro bem recentemente. E que fique bem claro, ao contrário do Presidente da Câmara de Paços de Ferreira (que não mereceu até hoje nenhuma crítica sua sobre a postura hipócrita que tem sobre as SCUT), a minha preocupação não é a IKEA. São mesmo os habitantes da região.
    Por tudo isto, creio que será de justiça para comigo não fazer da minha posição sobre a matéria uma tentativa de salvar a face do PS. Da mesma forma, Dr. Cristiano, se estiver disponível para abordar todas estas questões, estará livre de ser acusado de fazer política partidária com o único objectivo de atacar o Governo, ao invés de se focalizar na defesa dos interesses das pessoas da região.

    Os meus melhores cumprimentos

    Glória Araújo

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