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domingo, 29 de agosto de 2010

Bloco de Quê?

Não consigo encarar, senão como uma espécie de incursão transcendental, a abordagem mais ou menos séria a assuntos que digam directa ou indirectamente respeito a esse arrastado, indefinido, irresoluto, místico projecto político que dá pelo nome de Bloco de Esquerda. Torna-se, pois, muito complicado falar daquilo que sendo eleitoralmente expressivo, de resto pouco mais expresse (ou talvez expresse sobretudo o facto de muito pouco expressar…), se é que daqui se infere o real sentido do raciocínio e da perspectiva. Talvez por pouco ou nada ser, excepto aquilo que de imediato se vê e ouve – marketing político e aparência -, não tenha causado espécie a ninguém, não tenha causado qualquer tipo de escândalo ou admiração, o apoio dado pelos ditos ‘de esquerda’ ao militante e ex-deputado PS Manuel Alegre.
Não obstante a evidência de por cá nem todas as titubeações políticas serem alvo de arregalo, bem vistas as coisas não existe sequer titubeação quando não se está na prática e em teoria em parte nenhuma. Daí ninguém se ter importado muito com o apoio do Bloco a Alegre. É que neste caso específico, contrariamente ao que aconteceu noutros contextos de eleições presidenciais, não se trata apenas de um circunstancial apelo ao voto entre um ‘mau’ e um ‘menos mau’, numa circunstância bipolarizada de definição obrigatória e atendendo a que nas presidenciais, como se sabe, o voto em branco, tecnicamente, nada conta. Pois a grande questão é que o Bloco acha mesmo, e o Bloco acha sempre muitas coisas, que Alegre, esse – como todos os portugueses sabem – ‘alinhado’ com as políticas do PS, será o melhor presidente da República que Portugal pode ter. O Bloco não tem, nem vê, melhor Presidente da República que Manuel Alegre.
Tenho dúvidas de que não houvesse solução interna, até de acordo com aquilo de que o BE tem ‘vivido’, ou seja, que houvesse por ali alguém com discurso ‘chocolate para os ouvidos’ capaz de levar o eleitor insatisfeito até ao voto. Mas o que é certo é que o Bloco não teve outra opção que não apoiar o mesmíssimo homem que nas últimas legislativas elogiou quase tanto o governo e José Sócrates como o próprio José Sócrates. Todos sabemos que imperativos de agenda, certamente desculpáveis, inibirão Louçã e Sócrates de se apresentarem em arruada ladeando o candidato que os une (bela expressão!), o que seria curioso para uns, muitíssimo engraçado para outros, mas que seria certamente demasiado opróbrio para os resistentes das formações de base daquilo que tristemente se veio a tornar no Bloco de Esquerda.
Talvez demasiado entalados na sua ambiguidade para dar mais do que uma ou duas razões válidas para apoiar o candidato do PS, parece haver porém quem prefira ‘atirar-se’ àqueles que à (verdadeira) esquerda tenham um candidato próprio. Tem-se, pois, constatado, pela leitura da blogosfera, que alguns dos mais apaixonados apoiantes bloquistas parecem ter um crónico problema a resolver com o PCP. Só que talvez devessem por cautela concentrar-se no facto de o Bloco ter antes de mais crónicos problemas a resolver consigo próprio, e posto isso bom seria que os resolvesse, pois talvez ainda vá a tempo de se tornar efectivamente numa força política minimamente coerente e afirmativa, mas sobretudo, e isso parece-me o mais importante, numa força capaz de ser levada a sério…
Ivo Rafael Silva, in Ad Argumentandum

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