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domingo, 16 de janeiro de 2011

O Chefe do Portugal Velho


Estão milhares de olhos postos na televisão, gente vergada, quase de joelhos, assistindo deliciada a mais uma homilia do dr. Cavaco. Tudo isto é figurativo, tudo isto é sintomático. Um povo deslumbrado e apaixonado, escutando a sua superior divindade, cuja carga mística do discurso pausado se lhe é aumentada pela pose ensaiada de quem se acha dono e senhor de uma suprema inteligência. E que povo é este na sua essência? Que audiência é esta mergulhada em tal arrebatador fascínio? Que desmesurados adeptos são estes que aplaudem até fazer ferida a prosápia do excelso professor?
Doa-nos a alma, pois é ainda este o povo dos dias cinzentos, o povo dos panos pretos. É o povo do pão e do vinho sobre a mesa mas alegre pela pobreza. É o povo das orações decoradas que nunca hão-de saber ler. É o povo da província distante e cercada de nada, encantado pelo sábio professor doutor da metrópole preenchido de tudo. É o povo da eternamente empoeirada beira de estrada que acha que é ali o seu lugar – ou ali ou no cemitério. É o povo das gloriosas estórias do império e da exaltação nacional, o povo inabalavelmente devoto da santa perpétua resignação. É o povo das côdeas de broa e de uma sardinha para cinco, o povo do fado da vida desgraçadinha e da cantilena da viuvez eterna. É o povo miserável da mulher como escrava, do seu lugar na cozinha, da sua condição inferior. É o povo da moralidade que se julga pura, porém pejada de vermes e infestada de hipocrisia até à ponta dos cabelos. É o povo das vénias e do caciquismo, do seu rico filho que ‘faz pela vida’ engraxando as patas ao presidente. É o povo corrupto que ‘vai lá’ pelos ‘conhecimentos’, o povo que come e cala, ou então o que cala que não come.
Mas não se faça de tudo isto – de alguma coisa sim – uma leitura literal. Mudaram os tempos, é certo, mas nem tanto as vontades. Hoje a capa é diferente mas a roupa interior é a mesma. Num saudosismo cego e atroz parte-se muitas vezes em busca e defesa das referências do passado, e talvez nem tanto por mero acaso, Cavaco Silva seja para muitos a coisa mais próxima de Oliveira Salazar que este país produziu desde 1974. Desengane-se quem pensa que não há por aí um semi-oculto desejo de voltar celebrar pomposamente o 28 de Maio, de inscrever os filhos numa nova mocidade portuguesa, de saudar o velho director de escola com o braço esticado. Ainda que decorridos anos e gerações, não faltam empestados até ao tutano com essa formatação visceral de outros tempos. E alguns até, mesmo tendo sentido no corpo e no prato o resultado das atrocidades cometidas pelos seus adorados senhores, ainda assim persistem na bajulação doentia dos causadores da sua própria desgraça, daqueles a quem batem palmas e humilhantemente beijam, lambem, afagam os pés imundos.
Cavaco disfarça com silêncio a sua tremenda falta de inteligência. A banalidade de o que profere só alterna com a evasão àquilo que considera – e é quase tudo – uma inconveniência. É um homem de mais fama que mérito. Um político sofrível, sem craveira nem estofo, um primeiro-ministro desastroso e desastrado, um presidente da república esquivo, inócuo, evasivo, ambíguo, alheado de tudo e de todos. Estes ‘todos’ são os portugueses, a quem, na sua maioria, o íntimo do senhor pura e simplesmente despreza. É-lhe intrínseca aos actos a visão estreita do mundo, fermentada nessa módica vidinha portuguesa, na sua ‘plena integração no regime’, nas doutrinas clericais de outrora que a própria igreja católica hoje se recusa a repetir. O catolicismo de Cavaco não é sequer o catolicismo plural e renovado, embora lento, do estudo e da aceitação da diferença que tem emergido. Não é o catolicismo de homens das letras e da ciência como D. Manuel Clemente ou D. Carlos Azevedo, por exemplo. É, isso sim, o do velho regime Cerejeirista, aquele que preside à moral vigente do mais alto magistrado da nação.
Este é o homem que nas palavras de Baptista-Bastos ignora que “elogio em boca própria é vitupério”, e por isso não se coíbe, como se viu, de dizer que seria preciso nascer-se duas vezes para igualar-se em seriedade a sua admirável criatura. Este é também o homem que negou uma pensão a Salgueiro Maia quando este já se encontrava gravemente doente, uma recusa que só veio a público três anos depois, quando o mesmo Cavaco Silva decidiu nessa altura conceder a mesma pensão a dois ex-inspectores da PIDE/DGS. Um destes PIDE’s que estava até, note-se, entre “os que se entrincheiraram na sede da rua António Maria Cardoso e que fizeram fogo sobre uma pequena multidão, tendo causado os únicos quatro mortos da revolução”. Toda esta história – não vá alguém pensar que se trata de uma inventona digna de “campanha suja” – está detalhada, por exemplo, no jornal de que o presidente tanto gosta e para onde remete tantos esclarecimentos… o Expresso.
Este é ainda o ressentido ausente das cerimónias fúnebres do Prémio Nobel e escritor maior da língua portuguesa do século XX, José Saramago. E de facto, como disse Pilar Del Rio, o escritor não merecia a desfeita da presença de tão insignificante personagem naquele raro Portugal vestido de cravos e de livros. Mas o que é de lastimar e reprovar é a hipocrisia implícita no comunicado oficial ‘de pesar’ emitido pela presidência da república, uma formalidade institucional que se sobrepôs à histórica sensibilidade moral do detentor do cargo, a mesma que, anos antes, terá estado na base da decisão – em parelha com um tal Sousa Lara – da inibição da participação de O Evangelho Segundo Jesus Cristo num concurso internacional.
Este, caros senhores e senhoras, este é o chefe do velho Portugal, o das teias de aranha e dos cantos de sereia – e não falemos dos cantos dos Lusíadas… – substituídas por carpideiras. O Portugal da miséria, da incultura, da podridão, da falsidade e da hipocrisia. Cada eleição de Cavaco é um regresso ao passado mais abjecto. Cada voto nesse sentido é querer fazer parte dele.

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