BLOGUE DA ORGANIZAÇÃO DA FREGUESIA DE LORDELO DO PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Notas sobre os resultados eleitorais

1. Soberanamente, o povo decidiu votar à direita numa altura em que mais necessário seria votar à esquerda. Foram maioritariamente escolhidos dois dos três partidos que se comprometeram com o programa de governo do FMI. Passos Coelho e o PSD não foram eleitos nem pelas ideias, nem pelo seu programa – que os portugueses não leram – mas sim porque uma larga fatia da população o que quis, na verdade, foi livrar-se de José Sócrates. Votaram útil naquele que, segundo a lei das sondagens, teria maior probabilidade de ganhar. Aliás, como tantas outras vezes aconteceu e com os brilhantes resultados que se conhecem.
2. O povo terá certamente ouvido, com muita atenção, a mensagem sempre isenta e impoluta do Presidente da República, que disse, e passo a citar: “A acção do novo Governo, ao contrário do que por vezes se diz, não vai estar limitada ao cumprimento do memorando de entendimento que foi acordado com as instituições internacionais. O novo Governo terá muito mais para decidir e fazer, de modo a garantir a justiça social, o crescimento da economia e o combate ao desemprego.” Traduzindo: apesar dos malvadões esquerdistas andarem para aí a dizer que o programa da troika é que vai decidir o rumo político e económico do país, que uma vez mais a economia se vai sobrepor à política, que a alta finança é quem vai ditar o nosso rumo durante os próximos anos, a verdade que me dá jeito a mim, ao meu partido e aos interesses que defendo, é que todos entendamos que há muita margem de decisão e que é muito importante votar no PSD.
3. Depois dos resultados conhecidos e das reacções dos diferentes partidos, repetiu-se a já patológica reacção anti-comunista à reacção comunista. Disse-se exaustivamente, num rasgo de inteligência e original capacidade analítica, que a CDU cantou vitória e que “ganha sempre”. E, peço desculpa por dizê-lo mas… disseram-no com muita razão. Onde é que já se viu, numa eleição em que o objectivo é eleger mais deputados para a Assembleia da República, considerar-se positivo o facto de se conseguir eleger mais deputados para a Assembleia da República? Um óbvio disparate da CDU.
4. No rescaldo das últimas eleições presidenciais, escrevi aqui que o apoio do Bloco a Manuel Alegre iria reflectir-se com claro prejuízo para os bloquistas. Foi uma das razões do desastre eleitoral do Bloco mas não a única, nem sequer talvez a mais importante. A verdade é que ficou claro, pela análise da votação, que tendo a CDU mantido o nº de votos e conseguido mais um deputado, o eleitorado que votava BE foi direitinho para a direita! Um partido com base indefinida, que salta de causa em causa sem saber que margem atingir, só pode ter um eleitorado igualmente “saltitante”, ou na pior das hipóteses, um eleitorado claramente de direita que teve um comportamento sazonal e que, desencantada com o outrora entusiasmante Louçã, agora decidiu regressar à base. Não se pense que me satisfaz este resultado do Bloco, que tem na sua base partidos e militantes de esquerda, mas não se pode deixar de observar criticamente a conduta profunda e estruturalmente errada da sua cúpula dirigente.
5. Não consegui deixar de atentar num pormenor aparentemente irrelevante. Em 2009, apareceu insistentemente na comunicação social o rótulo de “última força política”, associado, na altura, à CDU. Fui estando, o mais que pude, atento aos informes eleitorais e a conclusão a que chego é que, passados apenas dois anos, a “tabela classificativa” deixou de ter qualquer relevância. De repente, houve um 1º lugar em tom de maioria absoluta, um 3º que parece ser 2º, e um 4º que perde mas que “ganha sempre”. Terão pensado os editores, jornalistas e comentadores que talvez seja muito confuso (e incómodo) estabelecer classificações e que por isso é melhor deixar os rótulos de “primeiros” e “últimos” para o futebol. Acho muito bem!
6. Para terminar, gostaria de sugerir aqui uma medida prática, que poderia ser, creio eu, de muito melhor proveito para todos. Que o chamado “Dia de Reflexão” deixasse de ser o dia imediatamente anterior ao acto eleitoral, e que passasse a ser o dia imediatamente posterior ao acto eleitoral. No dia anterior já todos reflectiram sobre as sondagens, sobre os que mais vezes apareceram na televisão, sobre os mais bonitos e elegantes, sobre os que não gostam e sobre os que “talvez” venham a gostar. No dia seguinte, regressando ao trabalho ou dando pela falta dele, pagando as contas ou dando pela impossibilidade de o fazer, pagando transportes, portagens, propinas e tudo o mais que os mesmos de sempre determinaram com as respectivas políticas, talvez seja mais fácil correlacionar a efectiva realidade com o voto dado, e talvez a reflexão seja mais lúcida e consequentemente mais produtiva no futuro. Fica a sugestão!


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