BLOGUE DA ORGANIZAÇÃO DA FREGUESIA DE LORDELO DO PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS

domingo, 17 de julho de 2011

Andando na ciclovia, vivendo no esgoto

A  Câmara de Bragança inaugurou recentemente uma ciclovia em torno do Instituto Politécnico de Bragança., com uma extensão de 4 Km. Trata-se da primeira de duas que o Executivo de Bragança quer construir. O custo da ciclovia em torno do IP de Bragança orçou os 2,8 milhões de Euros, 80% dos quais em fundos comunitários e 20% obtidos dos cofres camarários. Não tendo havido uma aceitável solução de crédito bancário, este recurso financeiro próprio fez-se á custa da supressão de outros projectos de investimento.
Independentemente de problemas práticos de circulação, como o conflito de interesses entre peões e ciclistas, importa reflectir sobre a oportunidade e necessidade de um tal equipamento urbano, bem como no seu custo, numa cidade da dimensão e climatologia como Bragança. Custa perceber as prioridades de investimento da Câmara PSD de Bragança, tendo em conta a desertificação, a falta de investimento produtivo, o desemprego, a emigração de quadros qualificados, o envelhecimento dos habitantes. Investimentos como as ciclovias só são positivos num quadro de uma modernidade e melhoria da qualidade de vida onde o essencial esteja assegurado (economia local, infraestruturas de água e saneamento, apoio social, acesso a cuidados de saúde). Fora deste contexto, não passam de uma ostensiva e irracional bizarria, quer se situem em Bragança, na Moita ou em Paredes.
É esta política _ que se baseia em factos, obras e projectos com uma componente exibicional e demagógica, e que enchem circunstancialmente o olho do eleitor mas não concretizam nada de definitivo _ que justifica o estado em que estão as finanças públicas. Não admira que perante a ciclovia brigantina, o cidadão local refira o seu espanto com a obra, por ela se situar em Bragança. Fosse ela mais um delírio do centralismo lisboeta ou da megalomania à Rui Rio, e tudo seria para ele menos impressionante.
Outros exemplos de utilização irracional de dinheiros públicos são conhecidos, como o Multiusos de Gondomar, que só serve para um Salão Erótico anual, ou o aeroporto de Beja e o seu voo semanal. Os fundos nacionais e os apoios comunitários transformaram o País numa manta de incoerências, onde há autoestradas sem automóveis, cidades vizinhas unidas por estrada sem passeios, freguesias sem rede de saneamento, rios permanentemente poluídos, escolas transformadas em palacetes em que as despesas de funcionamento são incomportáveis, bibliotecas (em edifícios novos) vazias, cidades inteligentes sem maqueta nem projecto.
Os responsáveis políticos a todos os níveis deveriam ser responsabilizados e castigados política e criminalmente por opções e decisões que ultrapassassem o bom senso. Se houvesse um estudo de opinião que interrogasse os cidadãos de Bragança sobre a forma de investir 2,8 milhões de euros na sua cidade, quantos refeririam a ciclovia como necessidade (mesmo que não prioritária)? Se se fizesse um estudo de mercado sobre o preço de 4 km de ciclovia, qual o preço das candidaturas? A quanto monta a opacidade da decisão política, o silêncio das derrapagens financeiras, a sobranceria do exercício do poder, a ausência de partilha de responsabilidades?
Quantos assessores são necessários em tempo de crise? Quantos motoristas? Quantas ilusões?

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