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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

As vacas

A primeira vez que ouvi falar nelas, num tom simultaneamente assertivo e didáctico, tinha para aí 19 anos e encontrava-me numa taberna apinhada de trabalhadores rurais.
A taberna pertencia ao meu pai, a turba estava suspensa da televisão que, à época, era das primeiras na aldeia e foi dali que jorrou o discurso sobre elas. As vacas. «Vacas gordas», mais concretamente, que o senhor Presidente do Conselho, Professor Marcelo Caetano, numa das suas «Conversas em família», entendeu declarar que «tinham acabado». Mais exactamente, o que disse foi «caros telespectadores, o tempo das vacas gordas acabou».
Foi uma risota. Descontados os momentos de estupefacção e respeito que a figura infundia – ou não fosse professor, doutor e, sobretudo, chefe do temido regime fascista –, aquela espessa multidão benzida a copos de três desatou numa gargalhada homérica, após digerir o absurdo da frase. «Vacas gordas?», repetiam com risos sacudidos e murros nas mesas, «só se foi na casa dele!».Com a dita Revolução de Abril acabou-se a conversa das vacas e, em escassos três anos, o povo português acordou duma letargia de 48 anos de ditadura obscurantista e aterradora para uma realidade luminosa, onde a liberdade, a democracia, a conquista de direitos sociais universais como a Saúde, o Ensino e a Segurança Social foram plasmados na Constituição mais avançada de toda a Europa capitalista de então.
O tempo rolou e os vendilhões do templo foram-se assenhoreando das alavancas do poder democrático, que em breve manejavam com maestria. E dedicaram-se, ao longo de décadas, a repor as indignidades sociais do passado devolvendo haveres e poderes aos senhores de antanho e aos que ascenderam ao topo cavalgando a onda de Abril, enquanto atolavam o País no «projecto europeu» da CEE, apresentado, em doses maciças de propaganda, como os (finalmente) assumidos «amanhãs que cantam» que a direita havia inventado para denegrir o socialismo.
E eis que regressam as vacas, sempre apresentadas em dois rebanhos distintos: as «vacas gordas» do passado (que ninguém viu ou provou, mas pelos vistos existiram, provavelmente nos estábulos de Afonso Henriques) e as «vacas magras» do presente, que todos (os do poder, entenda-se) prometem engordar no seu governo. E se as engordam, devem levá-las com eles para melhores pastagens – por exemplo na Suíça.
O certo é que as vacas regressaram em força, às vezes com variantes folclóricas – como o «pântano» em que Guterres as atolou ou a «tanga» que Durão Barroso lhes vestiu.
E regressaram também à Europa, que isto das vacas é um artigo «global».
Assim, confrontados com a crise profunda em que a especulação financeira lançou o mundo, a par da crise capitalista clássica da sobreprodução e da falta de mercados (Marx explica), os senhores desta «Europa dos amanhãs que cantam» viram-se também para as vacas, dizem que estão esqueléticas e, a coberto disso, julgam caucionar o ataque selvático e generalizado que lançaram ao chamado Estado social através da burla do défice estatal.
Com tanta vaca à solta, isto só pode desembocar numa grande tourada. De rua.

Henrique Custódio, in Avante!

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