BLOGUE DA ORGANIZAÇÃO DA FREGUESIA DE LORDELO DO PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Os donos dos bastões

Tenho 29 anos. Não vivi a repressão fascista e era muito pequeno para perceber quem eram aquelas mulheres e homens que fugiam dos bastões na Marinha Grande e na Ponte 25 de Abril. Tampouco era grande para compreender que os donos dos bastões não eram os que os usavam. Quando brincava na rua, em noites quentes como esta, com os netos do canalizador do rés-do-chão esquerdo, com o filho do mecânico do rés-do-chão direito e com a neta do operário do primeiro esquerdo – que mais tarde vim a descobrir ser militante comunista – não desconfiava que o mundo estava dividido ao meio. Só mais tarde, quando aderi à Juventude Comunista Portuguesa, pude organizar e dar sentido às memórias de criança. Aí, tudo me pareceu claro.

Aquelas noites pareciam-me pacíficas como a muitos lhes parece pacífica a noite de hoje. Nunca pensei muito nisso mas teria medo se alguém me dissesse que tinha de abandonar os meus jogos nocturnos porque uma turba ia lançar o caos. Nessa época, como hoje, os únicos que afogavam a vida dos meus vizinhos na desordem eram os protagonistas das privatizações das fábricas da Amadora. Mas eu ainda não tinha idade para perceber que esses eram os verdadeiros donos dos bastões que caíam sobre as costas de quem protestava.

Anos mais tarde, dentro da claridade que me deu a participação organizada na luta junto dos trabalhadores, pude resistir ao lado dos operários da ex-Sorefame e da MB Pereira da Costa. Num caso como noutro vi como mulheres e homens, iguais aos da Marinha Grande e da Ponte 25 de Abril, recebiam bastonadas da polícia. Vi como o patrão contratou homens armados de paus, soqueiras e pistola para abrirem caminho à força durante a madrugada. Vi como nos tentaram arrancar do chão quando decidimos bloquear a saída do estaleiro e vi como esperaram pela saída das televisões para carregar sobre quem protestava. À hora de jantar, a verdade que saía da boca do pivot do telejornal nada tinha a ver com o que tinha acontecido.

Mas podemos recuar ao último ano. Militantes da JCP foram detidas e despidas na esquadra por pintarem um mural. Na greve geral, carregaram sobre os trabalhadores dos CTT. Durante a Cimeira da NATO, agentes das forças especiais sequestraram um dirigente sindical que fazia uma chamada junto a um hotel de Lisboa. Em frente a São Bento, a polícia bateu em trabalhadores que se manifestavam e deteve dois sindicalistas. Um simples artigo não chegaria para denunciar todas as situações vivida por muitos durante esta década. Havia que elaborar um relatório de todas as acções que os governos PS, PSD e CDS, através das forças de segurança, levaram a cabo contra os trabalhadores e as populações. Desde a simples identificação para amedrontar quem distribui um panfleto à porta de uma empresa, à carga policial contra quem protesta de forma pacífica. Mas também havia que incluir a violência patronal como a do empresário que atropelou uma grevista na última paralisação geral. Ou a dos que sequestram os trabalhadores. Por isso, desengane-se quem acha que esta noite é pacífica. Os que nos vigiam e nos controlam não o fazem para que não haja violência. Fazem-no para que sejam eles os únicos a usa-la. Para que continuem a ser os donos dos bastões.

Bruno Carvalho, in 5Dias.net

Sem comentários:

Enviar um comentário