BLOGUE DA ORGANIZAÇÃO DA FREGUESIA DE LORDELO DO PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O euro acaba aqui.

Querem convencer esta gente de que há vida além deste orçamento. Não há.
É um pequeno jardim com um quiosque onde a Câmara fez uma esplanada sempre cheia de gente, uma bica, uma tosta, um queque. Jornais para ler. É um pequeno negócio mas mudou a vida do bairro. Nas noites quentes ouvem-se os risos dos jovens e aos fins de semana correm crianças e cães que compõem a melodia dos jardins.
Fui ao jardim e alguma coisa tinha mudado, imperceptivelmente. À hora do almoço a esplanada tinha lugares vagos e os bancos de madeira estavam cheios. Não havia um banco vazio. As pessoas comiam de marmitas, recipientes de plástico, sacos de congelação. Duas mulheres tinham trazido melão cortado em quadrados que comiam com um garfo. Um casal desembrulhava um tachinho com cuidado. Os sem-abrigo do costume não andavam por ali, ressonando à sombra, abraçados a um saco de supermercado cheio de pertences.
Segundo a doutrina vigente este é o caminho colectivo, a que os apoderados do regime chamam "frugalidade" e "novo modo de vida". Esta gente, pequenos funcionários com salários pequenos, foi convencida de que a culpa de tudo o que de mau nos acontece é dela. Dos medianos empregos que sustentariam um nível de vida caro a que nunca correspondeu produtividade ou trabalho em proporção. Esta gente foi convencida de que vive acima das suas possibilidades. E, como não tem iPad nem passa a vida a ler os jornais económicos, não frequenta paraísos fiscais, não conhece o Keynes nem o Krugman, não frequenta os salões da elite, não tem amigos poderosos, como está arredada dos centros de decisão de Portugal e da Europa, como nunca foi a Wall Street, como lhe foi retirada uma medida de controlo da sua existência, como foi aterrorizada com as ameaças de desemprego e destituição, de taxação e privação, acredita em tudo. Tem medo.
Esta gente, que come de sacos de plástico como os sem-abrigo, foi convencida de que a culpa é dela. A culpa dos políticos cujos rendimentos aumentaram dez vezes mais desde que passaram pelo governo (vejam a infografia do Expresso online, baseada num livro da editora Lua de Papel da autoria de António Sérgio Zenha. Título? "Como os políticos enriquecem em Portugal"). A culpa dos políticos em conselhos de administração ou cargos pºublicos bem remunerados, no activo, cujas pensões vitalícias não são afectadas pelos cortes da austeridade do orçamento ("DN"). A culpa de todos os projectos "faraónicos" (palavras do ministro da Economia) autorizados pelos governos que tivémos desde  o 25 de Abril, e que custaram a todos, como o Tribunal de Contas vinha alertando, o triplo do que deveriam ter custado.A culpa de um sistema de justiça de que toda a gente se queirxa como um travão burocrático mas com corporações com privilégios em que ninguém ousa tocar. A culpa de um Serviço Nacional de Saúde que nunca foi racionalizado, permitindo a outras corporações a fazer negócios na Saúde à custa do Estado. A culpa dos milhares de projectos autorizados por câmaras municipais favorecendo grupos privados, contra todos os pareceres contrários de técnicos e até de presidentes dessas câmaras (se tivessem lido a história contada pelo jornalista António José Cerejo no "Público", sobre uma urbanização de Alcântara, ficariam arrepiados). A culpa da exposição da banca a operações e investimentos de alto risco que correram mal. A culpa dos especuladores armados em moralistas. A culpa da descapitalização das pequenas e médias empresas às quais a mesma banca se recusa a cinceder crédito. A culpa dos monopólios e coutadas privadas dos novos capitães da indústria, acolitados pelo Estado que agoram detestam e a cuja sombra fizeram carreiras de luxo e privilégio. A culpa dos políticos superficiais, venais ou corruptos. A culpa dos partidos que promoveram o nepotismo.
A culpa colectiva, convenientemente distribuída entre remediados e pobres. A culpa é uma taxa de que os ricos estão isentos.
Querem convencer esta gente de que há vida além deste orçamento. Não há. Quando os estabelecimentos fechados, as empresas fechadas, os serviços fechados, anunciarem ao mundo que os mais fracos e vulneráveis são os primeiros a morrer, quando o desemprego subir e a insegurança aumentar, quando as lojas fecharem, as escolas pararem, os hospitais entupirem e as falências e insolvências dispararem, quando os velhos morrerem e os novos desertarem, esta gente reparará que chegou à miséria. E que um grupo de políticos sem visão lhes vendeu uma quimera. Na Europa exeistem 46 milhões de pessoas que não conseguem pagar uma refeição diária. Com fome. Na Europa, cujos deputados e comissários ganham fortunas e vivem em Bruxelas como nababos. Bruxelas manda. Bruxelas afirma. Bruxelas gosta deste orçamento. Foi este monstro chamado Europa que criámos e ele, como Saturno, devora os seus filhos. O euro acaba aqui.

Clara Ferreira Alves
in Expresso 22/10/2011

Sem comentários:

Enviar um comentário