BLOGUE DA ORGANIZAÇÃO DA FREGUESIA DE LORDELO DO PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS

domingo, 25 de março de 2012

Algumas achegas sobre a Greve geral


1- O governo fez o papel político que lhe compete enquanto representante e gestor dos negócios da burguesia. As palavras de Passos Coelho separando os que fazem greve dos que “trabalham” não é mais do que a velha ladainha do lema “a minha política é o trabalho”. (Onde é que já se ouviu isto?). Apostado em dividir para reinar, o governo não fez mais do que exercitar o papel típico do Estado burguês de (tentar) desorganizar a classe trabalhadora, colocando trabalhadores pouco politizados e alienados contra os trabalhadores organizados.
2- A polícia também fez o seu papel. Não vou entrar na discussão de quem começou os confrontos, mas desde quando é que, por exemplo, atirar ovos a bancos deverá implicar uma resposta absolutamente bárbara da polícia sobre os manifestantes? Provocada ou provocadora (e todos os indícios expressos apontam claramente para esta segunda), a verdade é que estes actos da polícia só servem para duas coisas. Por um lado, mostrar a quem se manifesta (ou pensa vir a manifestar) “quem é que manda” e, por outro lado, e ainda mais importante, apagar o impacto real da Greve Geral e reduzir as 24 horas sem exploração a um episódio de violência. Também aqui a resposta da polícia recorre ao pensamento clássico burguês: para além deste mundo da mercadoria, o dilúvio e o caos. Se a alternativa construída pela junção de esforços entre os media e a polícia é a violência, portanto, se estas instituições construírem e apresentarem a luta popular como inerentemente violenta e detonadora de caos, a ideia que passa é que mais valeria manter-se o capitalismo pois este ao menos vive à conta da carneirização e da docilização dos trabalhadores… Portanto, se é perfeitamente correcto tentar ganhar agentes policiais individualmente considerados para o lado dos trabalhadores (não existem revoluções operárias em que parte das forças de segurança não tenha mudado de lado) também é bom recordar que a polícia é uma instituição central de repressão. Essa é, afinal, a sua função social e política fundamental: reprimir as lutas populares.
3- Os ideólogos do capital também gostaram de destilar os mesmos argumentos. O exemplo da TVI24, na noite de dia 22, com quatro convidados para comentar a Greve Geral a ver quem malhava mais e sem qualquer existência do contraditório evidencia o  estado de completo despudor da comunicação social (ao serviço) da burguesia. Aliás, a inexistência de contraditório é a melhor prova do sucesso da Greve Geral. O ódio ao sucesso de mobilização dos trabalhadores é sempre directamente proporcional ao subsequente silenciamento das suas organizações de classe, no caso a CGTP. Nesse mesmo “debate” um tipo armado ao bajulador e que trocava os rr’s pelos g’s falava sobre o “anacronismo” dos sindicatos – “vivem no século XIX” – e sobre o facto de ouvir as mesmas coisas dos sindicatos desde os anos 80. É para isto que os ideólogos servem: fazer a opinião dos idiotas que os vêem na televisão e que acreditam nas suas palavrinhas. Para estes meninos à procura de migalhinhas e de algum protagonismo mediático que dê sentido às suas vidinhas, a exploração capitalista, o tratamento dos trabalhadores como uma fralda descartável ou a manutenção de uma ordem social assente na ampliação gritante das desigualdades já não seriam anacrónicas…
4- Muito idênticos aos arrazoados dos ideólogos de serviço tivemos os deputados da troika nacional. Destaque para o deputado do PSD que, em resposta às afirmações do Bernardino Soares sobre as coacções realizadas em várias empresas na semana que antecedeu a Greve Geral, espumava e vociferava que o «medo apenas existiria na cabeça» do pobre Bernardino. De facto, é sempre interessante ver a reacção destes tipos quando se lhes confronta com aspectos directamente relacionados com as relações de trabalho. Para os representantes da burguesia as relações de trabalho seria um puro contrato entre iguais. Pelo menos é assim que eles gostam de as apresentar. O que isto nos mostra é que a crítica que a esquerda anti-capitalista desenvolve no quotidiano deve cada vez mais dar conta do totalitarismo inscrito na exploração capitalista: a transformação do trabalhador e de todas as suas actividades numa mercadoria; a verticalização absoluta das relações no local de trabalho entre a massa de trabalhadores e as administrações; o controlo da produção e da alocação da força de trabalho pela burguesia e pelos gestores como se os trabalhadores não fossem mais do que um recurso à disposição da lucratividade esperada pelas empresas; o esmagar de direitos básicos dos trabalhadores. Por conseguinte, a luta nas empresas evidenciando a mecânica interna da exploração é uma necessidade absolutamente crucial para as lutas dos trabalhadores.
5- Apesar de os números da Greve Geral não serem despiciendos para uma avaliação política, o mais importante em QUALQUER actividade de mobilização da classe trabalhadora é o facto de ser uma escola de luta absolutamente essencial para a aprendizagem política dos trabalhadores. A prática solidária e comunitária de luta que a participação numa Greve implica e a compreensão da luta simultânea contra o grande capital e contra os governos ao seu serviço são bem mais importantes para o futuro da luta popular do que saber se participaram 1 milhão ou 1,o1 milhões de pessoas. Dito isto, parece-me que a Greve Geral teve uma amplitude muito relevante (os dados coligidos e apresentados pela CGTP demonstram uma maior participação em várias empresas industriais de média e grande dimensão do que na anterior) e, desde 2002, foi a greve que mais politizou quem nela participou. Até os trabalhadores precários organizados nalguns movimentos sociais começam a falar em termos discursivos mais marxistas do que há uns três-quatro anos atrás: greve geral, trabalhadores, capital, piquetes, etc. Apesar das insuficiências ideológicas é inquestionável a politização das categorias com que estes movimentos começam a ver o mundo. O que mostra que o mais premente no actual contexto de luta contra as troikas FMI-UE-BCE e PSD-CDS-PS é continuar a luta e continuar a unir os vários sectores da classe trabalhadora em torno de uma plataforma de classe. Se a raiz dos ataques das troikas são inquestionavelmente fruto da acção de classe do grande capital para promover o máximo de transferência da riqueza produzida pelos trabalhadores para os bancos e para as empresas, então a resposta só pode ser uma contra-ofensiva da classe trabalhadora que coloque cada vez mais em causa os pilares classistas da dominação do grande capital. Continuemos e amplifiquemos a luta!

João Valente Aguiar, in 5Dias.net

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